sábado, 16 de agosto de 2014

Com o Tempo, passa.

O tempo toca a ferida, mostra em chaga a carne pútrida que parecia ter curado. O tempo dilacera a ferida, a mantendo não só aberta, mas em crescimento, como uma cria demoníaca de seu seio, como uma obra de seu ego infinito. O tempo acerta a ferida, recortando cada parte do ser que a tenta curar, enfraquecendo cada tímido pulsar de vontade, desmerecendo toda a esperança, matando o sistema imunológico da emoção.
 O tempo cria uma nova ferida, para provar sua crueldade, para fazer com que seja provado que uma dor não anula a outra, para que a tortura seja maior do que a morte, para que haja tamanho sofrimento que o ato de sangrar se torne um alívio. O tempo multiplica as feridas, a fim de conquistar o temor do divino, de ser mais cultuado pelo humano do que todos os deuses.
O tempo finge fechar as feridas, para que o homem tenha tanta fé no tempo que o permita controlar sua vida, deixando que o lobo se passe por ovelha. O tempo finge fechar as feridas, para que, mesmo ciente do apetite da saudade, ainda seja dito "com o Tempo, passa".

Hanny Writter,
16/08/2014